Precipitada, tentativa de reabertura no Chile deu errado pois autoridades ainda não haviam controlado a epidemia. Hoje país vê número de casos e mortes avançar e tem sistema hospitalar perto do colapso. Protestos, que haviam diminuído, voltaram

Um dos casos mais bem sucedidos no combate ao coronavírus até algumas semanas atrás, o Chile ensaiou uma reabertura que acabou acelerando a epidemia. Hoje o país quebra recordes diários do número de novos casos e mortes por covid-19. O presidente Sebastián Piñera se antecipou ao anunciar o plano de abertura antes de ter a pandemia controlada, o que incentivou a população a sair às ruas, afirmam médicos. Para analistas, a tentativa frustrada é explicada em parte pela ansiedade do governo em ver a economia se recuperar.

No início de março, o governo implementou "quarentenas dinâmicas", nas quais alguns bairros ficavam sob confinamento e toque de recolher de madrugada, que estavam sujeitas a revisão. Abriu ainda a torneira fiscal, com pacotes de mais de US$ 14 bilhões, e viu protestos que se arrastavam desde outubro diminuírem pelas medidas de isolamento social. A popularidade de Piñera, que vinha caindo desde os protestos, começou a subir - os 9% de aprovação em fevereiro subiram para 25% no início de abril - e se mantém estável.

Em 10 de abril, quando o Chile registrou 529 casos novos e nove mortes, o governo anunciou planos de adotar um certificado de imunização para quem tivesse anticorpos contra a covid-19. Autoridades médicas, no entanto, alegam que faltam informações para emitir tal documento. Em meados de abril, o Ministério da Saúde delineou planos de retorno gradual para funcionários públicos. A subsecretária de Saúde, Paula Daza, dizia que era possível sair para tomar café com amigos, respeitando o distanciamento social. O ministro da Saúde, Jaime Mañalich, chegou a falar que suspender as aulas havia sido um erro e que era preciso retomá-las o quanto antes.

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Em 24 de abril Piñera anunciou o plano Retorno Seguro e disse que a curva da doença no Chile havia atingido um platô. A estratégia permitia reabertura de alguns centros comerciais - o que era rechaçado à época por 66% da população. Logo em seguida o número de novos casos começou a acelerar - foi para 1.138 em 30 de abril e 4.276 em 22 de maio. Hoje, O Chile é o país da América Latina com maior número de casos per capita.

O governo transmitiu a mensagem errada à população, que pensou que o pior já havia passado, afirma Patricio Meza, vice-presidente do Colégio Médico do Chile. “Foram sinais muito confusos. Falou-se em nova normalidade e depois de retorno seguro, quando ainda estávamos a duas semanas do pico", diz Meza. "Isso teve um grande impacto, e as pessoas começaram a sair às ruas sem proteção, como se fosse um dia normal. Foi uma tentativa que não coincidia com a realidade sanitária."

Com os casos subindo, o governo mudou radicalmente a estratégia. Inverteu o discurso e passou a falar em "batalha por Santiago". Pediu que os chilenos tivessem mais responsabilidade e evitassem sair de casa e adiou o lançamento do certificado de imunidade. Decretou quarentena obrigatória e toque de recolher em 38 comunas (bairros) da região metropolitana da capital, nas quais vivem 7,4 milhões.

O Colégio Médico afirma que o maior erro do governo foi não ter escutado autoridades de saúde e prefeitos, que pediam lockdown em Santiago desde o início. A entidade pede a criação de uma grupo consultivo composto por Ministério da Saúde, médicos e membros da sociedade civil para chegar a tomada de decisões de forma conjunta. Propõe ainda que o governo aumente a capacidade de testagem (hoje em 17 mil por dia, para uma população de 18,7 milhões), rastreie os casos e ajuda a população vulnerável, que não tem condições de cumprir a quarentena.

A sensação de que o governo foi pretensioso é compartilhada também pelo epidemiologista e ex-diretor da OMS Alexandre Kalache. O médico brasileiro foi consultado por autoridades chilenas em 12 de abril sobre o que deveriam aproveitar da experiência do Brasil. “Naquele momento a situação era confortável para o Chile, que tinha poucos casos. Mas eles haviam feito diagnóstico precoce, quando os infectados ainda estavam concentrados em zonas ricas de Santiago, como Las Condes e Vitacura", diz.

Kalache conta ter alertado autoridades chilenas de que, se não protegessem quem vive em zonas de maior vulnerabilidade, corriam o "risco de repetir a história desastrosa do Brasil". "Mas o negacionismo e a ideia de achar que 'somos os melhores e vamos dar conta de tudo' acabou marcando a crise da covid-19 no país. Hoje reconhecem que era necessário um lockdown em Santiago desde o início."

Na região metropolitana de Santiago, que concentra 80% dos casos do país, o sistema de saúde está perto do colapso - 95% dos leitos estão ocupados, chegando a 100% em alguns hospitais. No restante do país, a média de ocupação é de 78%. Pacientes são assistidos com ventiladores em áreas como seção pediátrica ou no pronto socorro, quando deveriam estar na UTI, alerta Meza.

Hoje a doença se espalha para bairros mais pobres e favelas, onde crescem os protestos contra o governo e onde muitas pessoas não têm condições de cumprir a quarentena. Na semana passada, moradores da favela de Los Bosques protestaram contra o governo. Na vizinha La Pintana, manifestantes chamavam o ministro da Saúde de assassino.

"Isso acendeu um alerta no governo e lembrou um desconforto socioeconômico estrutural", afirma Leandro Lima, da Control Risks. "Os protestos podem ter ficado ocultos pela quarentena. Mas a crise atual reforça o mal-estar social que já existia no Chile."

Para Tomas Undurraga, da Universidade Alberto Hurtado, a reabertura fracassou em parte pela ansiedade do governo em ver a economia se recuperar mais rápido do que as condições sociais e sanitárias suportavam. "Piñera pensou: 'com essa desaceleração, aumento do desemprego e da pobreza, vamos demorar dez anos para recuperar o nível de crescimento atual'. Por isso a ansiedade", diz.

Em março, o desemprego em Santiago chegou a 15,6%, maior alta em 35 anos. Economistas privados estimam que a economia chilena deve recuar 4,5% neste ano.

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